5.5.11

O Japão avança para a vida

hand life - ApocalipseEmTempoRealNo instante em que o mundo se volta para a tragédia do Japão, com os terremotos, a tsunami e depois, a liberação de nuvem tóxica altamente radioativa, consequência de avarias nas usinas atômicas, trazendo o envenenamento da população, apareceu uma fotografia comovente na capa de alguns jornais, que diz muito do desespero. Uma japonesa chorando junto à terra que enterrou sua mãe e que, num hausto, abrindo vereda na morte, ainda conseguiu estender a mão para fora.

Sabemos que o Japão possui vocação de renascimento. Quantas vezes se levantou das cinzas, das ruínas, das guerras e dos cataclismos e continua sendo arauto de progresso, de aproveitamento mínimo de espaço, de técnica, tendo uma civilização antiquíssima, com literatura entre as mais altas do mundo contemporâneo, destacando-se autores como Yasunari Kawabata, de “O País das Neves”, ou Kenzaburo Oe, cujo livro “ A Captura” saiu no Brasil em 1995.

Mas, no meio dessa tragédia que abalou o povo nipônico, não sei o que pensar da imagem da mão de uma mãe morta saída da terra, mão absoluta, imperiosa, acima dos acontecimentos, essa mão que ainda acredita na sobrevivência do povo. Esta mão que buscou, inesperada, a filha no meio da calamidade, esta mão que se levantou como um sinal, uma advertência do futuro. Ou derradeiro ato de amor, fugindo dos limites da ruína, mão de mulher que escapou do soterramento, para avisar que algo ainda resiste, algo é bem maior do que a destruição ou a dor, algo que é da força do espírito diante dos abalos da carne.

Não sei o que pensar do sofrimento dessa filha, cujo nome não é escrito, nem murmurado, ficando apenas a imagem de nossa transitória condição, imagem que também desaparecerá na vertigem das notícias. A filha chora a perda, a nação nipônica chora o desastre e o mundo, perplexo, assiste ao espetáculo do horror e do medo.

Não sei o que pensar, leitores, da agonia da mãe sob a terra, nem da terra que a esmagou insensível. Mas há, contudo, esta mão que saiu para fora, saiu de dentro da escuridão, saiu como parte viva que não aceita derrota, que não aceita o jugo do que se extingue, que sabe como ninguém que o amor pode tudo, o amor é invencível. Sim, invencível como esta mão que repreende o terror, a estupidez e avança para a vida.

Por: Carlos Nejar

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